Sobrenomes do Leste Europeu no Brasil: Origem, Adaptação e Permanência

Família de imigrantes com malas de viagem chegando a uma casa de fazenda rústica no Brasil

Publicado em 9 de fevereiro de 2026

Atualizado em 21 de julho de 2026

Se você tem um Kowalski, um Kravchenko ou um Ivanovich na família, já deve ter se perguntado de onde veio esse sobrenome e por que ele soa tão diferente dos nomes portugueses que dominam o resto do Brasil. Os sobrenomes do leste europeu chegaram aqui numa das ondas de imigração menos lembradas da nossa história, mas que deixou marca forte em cidades inteiras do Sul do país.

Em resumo: os sobrenomes do leste europeu vieram ao Brasil principalmente entre 1890 e 1930, trazidos por poloneses, ucranianos, russos e húngaros que se fixaram no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Muitos nomes foram adaptados nos cartórios por dificuldade de grafia e, mais tarde, pela política de nacionalização do Estado Novo. Ainda assim, boa parte sobreviveu intacta, principalmente em Prudentópolis, no Paraná, onde a ascendência ucraniana chega a cerca de 75% da população.

Neste artigo:

De onde vieram os sobrenomes do leste europeu no Brasil

A imigração polonesa foi a mais numerosa entre os povos eslavos que vieram para o Brasil. Os primeiros grupos organizados chegaram a Santa Catarina e ao Paraná em 1869, e a partir de 1875 passaram a se instalar também no Rio Grande do Sul. O maior pico aconteceu entre 1890 e 1891, movimento que ficou conhecido na Polônia como “febre brasileira” (gorączka brazylijska). Segundo levantamento histórico publicado na revista acadêmica História Econômica (Scielo), entre 1890 e 1914 mais de 96 mil poloneses desembarcaram no porto do Rio de Janeiro, e cerca de 35 mil deles seguiram diretamente para o Paraná.

A imigração ucraniana começou pouco depois. O primeiro grupo desembarcou no Rio de Janeiro em 23 de agosto de 1891, data hoje lembrada como o marco da chegada ucraniana ao país. Novas levas vieram entre o fim do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, e um grupo menor chegou após a Segunda Guerra, entre 1945 e 1951, fugindo da ocupação soviética.

Russos e húngaros formaram grupos bem menores. Parte dos imigrantes russos que vieram no início do século XX era de famílias judias fugindo de perseguições no Império Russo, um capítulo que já contamos com mais detalhes no artigo sobre sobrenomes judaicos. Já os húngaros chegaram em números menores e mais dispersos, com destaque para São Paulo, a partir das primeiras décadas do século XX.

Vale lembrar que esse é só um recorte da história de imigração do Brasil. Para entender o quadro completo, incluindo italianos, alemães, japoneses e árabes, o artigo sobre imigração e sobrenomes no Brasil traz a visão geral de todas essas levas.

Para onde foram: os estados que concentraram essa imigração

Os imigrantes do leste europeu se concentraram principalmente em quatro estados: Paraná (principal destino de poloneses e ucranianos, com a maior densidade de sobrenomes eslavos do Brasil), Santa Catarina (porta de entrada pelo porto de Itajaí), Rio Grande do Sul (colônias a partir de 1890) e, em escala bem menor, São Paulo e o Espírito Santo.

Santa Catarina funcionou como porta de entrada, já que os navios costumavam desembarcar no porto de Itajaí antes de seguir viagem para o Paraná e o Rio Grande do Sul. Ainda assim, boa parte dos imigrantes ficou por lá mesmo.

O Rio Grande do Sul recebeu colônias importantes de poloneses e ucranianos a partir da década de 1890, muitas delas próximas às colônias de imigrantes alemães e italianos que já estavam na região. São Paulo e, em escala bem menor, o Espírito Santo também receberam alguns grupos, principalmente russos e húngaros, embora em número muito inferior ao das colônias do Sul.

Imigrantes com sobrenomes do leste europeu chegando ao Brasil no início do século XX

Prudentópolis: a colônia ucraniana mais forte do Brasil

Se existe um lugar no Brasil onde os sobrenomes do leste europeu nunca deixaram de ser maioria, esse lugar é Prudentópolis, no interior do Paraná. Levantamentos recentes, como o publicado pela Revista Oeste, apontam que cerca de 75% a 80% dos aproximadamente 50 mil habitantes do município descendem de imigrantes ucranianos, o que faz da cidade a maior colônia ucraniana do país.

A força dessa presença não é só estatística. Prudentópolis foi a primeira cidade do Brasil a reconhecer por lei o ucraniano como língua co-oficial, por meio da Lei Municipal nº 2.479/2021, aprovada por unanimidade na Câmara Municipal. A rede estadual de ensino local também oferece a disciplina de língua ucraniana na grade curricular, algo que não existe em nenhuma outra cidade do Paraná.

É justamente por isso que sobrenomes como Kowalski, Kravchenko, Danilenko ou Shevchenko continuam tão comuns por lá quanto Silva ou Santos em outras partes do país. A comunidade manteve igrejas de rito bizantino, festas tradicionais e até a grafia original de muitos nomes de família, algo raro em colônias de imigrantes de outras regiões do Brasil.

Família com sobrenome eslavo reunida em colônia de imigrantes no Sul do Brasil

Como os sobrenomes eslavos são formados: -ski, -vich e -enko não são a mesma coisa

Não, -ski e -vich não significam a mesma coisa. O sufixo -ski (ou -sky) é toponímico e indica origem de um lugar, como uma vila. Já -vich, -wicz e -enko são patronímicos e significam literalmente “filho de”, como em Ivanovich (“filho de Ivan”) ou Kravchenko.

O sufixo -ski (ou -sky)

O sufixo -ski (ou -sky, na grafia usada em russo e ucraniano) é, na origem, um sufixo adjetival. Ele significa algo como “de” ou “pertencente a”, e na imensa maioria dos casos indica ligação com um lugar, não com uma pessoa. Alguém chamado Kowalski provavelmente descende de uma família ligada a uma vila chamada Kowale ou Kowal, não de um antepassado literalmente chamado “Kowal”. Esse padrão toponímico é bem documentado em estudos de onomástica eslava e em referências especializadas em sobrenomes poloneses, como o PolishRoots.

Os sufixos -vich e -wicz

Já os sufixos -vich e -wicz (a mesma terminação, escrita de formas diferentes em russo, bielorrusso e polonês) são realmente patronímicos. Eles significam “filho de” no sentido literal. Ivanovich é “filho de Ivan”, assim como Petrovich é “filho de Petro”.

O sufixo -enko

No ucraniano, quem cumpre esse papel patronímico com mais frequência é o sufixo -enko, de caráter diminutivo e descendente. Kravchenko, por exemplo, remete a um descendente de alguém apelidado de “Kravets” (algo como “o alfaiate”). Levchenko segue a mesma lógica: descendente de Levko.

Resumindo: se o sobrenome termina em -ski ou -sky, a pista mais provável é um lugar de origem. Se termina em -vich, -wicz ou -enko, a pista mais provável é um antepassado direto. São famílias de sufixo diferentes, com histórias diferentes por trás. Quem quiser se aprofundar nas terminações russas, incluindo a diferença entre nomes masculinos e femininos, encontra mais exemplos no artigo sobre sobrenomes russos.

Por que tantos sobrenomes do leste europeu foram adaptados no Brasil

Dois motivos explicam a maioria das mudanças de grafia: primeiro, os cartórios brasileiros do início do século XX não conheciam o alfabeto cirílico nem combinações como “cz” ou “szcz” e escreviam o nome como ouviam; segundo, a Campanha de Nacionalização do Estado Novo (1937 a 1945) proibiu línguas estrangeiras em público, pressionando famílias eslavas a aportuguesar o sobrenome.

O primeiro é bem prático: os cartórios brasileiros do fim do século XIX e início do XX não tinham familiaridade com o alfabeto cirílico nem com as combinações de letras do polonês e do ucraniano. Um funcionário que nunca tinha visto um “cz” ou um “szcz” simplesmente escrevia o nome do jeito que ouvia, e o resultado era uma grafia aportuguesada que às vezes pouco lembrava o original.

O segundo motivo tem contexto histórico mais pesado. Durante o Estado Novo (1937 a 1945), o governo de Getúlio Vargas promoveu a chamada Campanha de Nacionalização. A partir de 1938, o ensino em português se tornou obrigatório em todo o país, e em 1939 o uso de línguas estrangeiras em público, inclusive em cerimônias religiosas, passou a ser proibido nas chamadas zonas de colonização estrangeira. Essa pressão, descrita em detalhe pela Wikipédia sobre a Campanha de Nacionalização e analisada em estudo acadêmico da PUCRS sobre a política de nacionalização de imigrantes, fez muitas famílias de origem eslava adotarem versões mais “afrancesadas” ou aportuguesadas dos próprios sobrenomes, por conta própria ou por exigência de escolas e repartições públicas.

O resultado é que hoje é comum encontrar ramos da mesma família com grafias diferentes: um Wiśniewski que virou Vichnievski, um Szewczenko que virou Chevtchenko ou Chevchenko. Nenhuma das duas formas está “errada”, elas só refletem o momento e o cartório em que aquele ramo da família passou.

Quais sobrenomes do leste europeu sobreviveram sem alteração no Brasil?

Sobrenomes como Kaminski, Wozniak, Kovalenko, Nowak e Lewandowski sobreviveram sem alteração no Brasil, principalmente em Prudentópolis e em bolsões de imigração polonesa em Curitiba e Santa Catarina. A regra é simples: quanto maior e mais isolada a comunidade, com igrejas e escolas próprias, maior a chance de o sobrenome ter chegado intacto até hoje.

Em Prudentópolis e em municípios vizinhos, ainda é fácil encontrar listas telefônicas e atas de igreja cheias de sobrenomes como Kaminski, Wozniak, Kovalenko ou Panchenko, praticamente sem adaptação. O mesmo vale para bolsões de imigração polonesa em Curitiba e no interior de Santa Catarina, onde sobrenomes como Nowak, Zaleski e Lewandowski seguem exatamente como chegaram.

Isso mostra algo importante: a adaptação de sobrenomes não foi uma regra fixa, e sim uma tendência que variava de acordo com o tamanho da comunidade, o isolamento geográfico e a época em que a família chegou. Quanto mais coesa a colônia, maior a chance de o sobrenome ter sobrevivido intacto até hoje.

Vila de colonos do leste europeu no interior do Paraná

Como pesquisar a origem do seu sobrenome do leste europeu

Se o seu sobrenome tem raiz polonesa, ucraniana, russa ou húngara, o ponto de partida é sempre o documento mais antigo que sua família guardar: certidões de casamento, batismo ou naturalização costumam trazer a grafia original, antes de qualquer adaptação.

Paróquias católicas de rito bizantino e igrejas ortodoxas do Sul do Brasil guardam registros de batismo e casamento que muitas vezes vão além do que consta em cartório civil. O FamilySearch já digitalizou parte desses acervos e disponibiliza gratuitamente. O Geneanet também é útil para cruzar informações com pesquisadores da Polônia, Ucrânia e outros países do leste europeu.

Para entender o passo a passo completo dessa pesquisa, vale a leitura do artigo Como Descobrir a Origem do Sobrenome: Guia Completo com História, Dicas e Passo a Passo. E se o seu sobrenome for de origem polonesa ou russa especificamente, os artigos sobre sobrenomes poloneses e sobrenomes russos masculinos e femininos trazem listas extensas com significado de cada terminação.

Este artigo foi construído a partir de fontes documentais, acadêmicas e jornalísticas listadas ao longo do texto, com foco em esclarecer um erro comum sobre a formação dos sobrenomes eslavos, a confusão entre sufixos toponímicos como -ski e sufixos patronímicos como -vich e -enko.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre sobrenomes terminados em -ski e -vich?
O sufixo -ski (ou -sky) é adjetival e normalmente indica origem de um lugar, como uma vila ou região. Já -vich e -wicz são sufixos patronímicos e significam literalmente “filho de”. São duas lógicas diferentes de formação de sobrenome, mesmo vindo das mesmas línguas eslavas.
É verdade que a maioria da população de Prudentópolis tem ascendência ucraniana?
Sim. Levantamentos recentes apontam que cerca de 75% a 80% dos aproximadamente 50 mil habitantes do município descendem de imigrantes ucranianos, o que faz de Prudentópolis a maior colônia ucraniana do Brasil e o primeiro município do país a reconhecer o ucraniano como língua co-oficial.
Por que muitos sobrenomes do leste europeu foram alterados no Brasil?
Por dois motivos principais: a dificuldade dos cartórios brasileiros com o alfabeto cirílico e com combinações de letras do polonês, e a pressão da Campanha de Nacionalização do Estado Novo (1937 a 1945), que restringiu o uso de línguas estrangeiras e incentivou a adaptação de nomes.
Quando começou a imigração do leste europeu para o Brasil?
Os primeiros grupos poloneses chegaram a Santa Catarina e ao Paraná em 1869. A imigração ucraniana começou em 1891, com desembarque no Rio de Janeiro em 23 de agosto daquele ano. As duas ondas se intensificaram entre 1890 e a Primeira Guerra Mundial.
Como descobrir se meu sobrenome do leste europeu era diferente originalmente?
Busque certidões antigas de batismo, casamento ou naturalização na família, além de registros de paróquias de rito bizantino ou ortodoxas do Sul do Brasil. Plataformas como FamilySearch e Geneanet ajudam a cruzar essas informações com registros da Polônia, Ucrânia e países vizinhos.
Autora Fernanda Carvalho
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Fernanda Carvalho é pesquisadora e entusiasta da história dos nomes de família. Criadora do blog Mundo dos Sobrenomes, dedica-se a explorar a origem, os significados e as curiosidades por trás de sobrenomes de diferentes países e culturas, ajudando leitores a descobrir mais sobre suas raízes e identidade familiar.

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