Publicado em 5 de novembro de 2026
Você abriu a certidão de casamento do seu bisavô e, no lugar da assinatura dele, encontrou uma cruz desenhada à mão, seguida de um nome diferente escrito por baixo. Não é erro de cartório nem sinal de falsificação. É uma assinatura a rogo, e ela aparece em uma fatia enorme dos documentos genealógicos brasileiros do século XIX e início do XX.
Se isso aconteceu na sua árvore genealógica, você não encontrou um problema. Encontrou um retrato fiel de como a maior parte da população brasileira vivia há 100 ou 150 anos. Vamos entender exatamente o que essa assinatura significa e o que ela conta sobre a sua família.
Em resumo: assinatura a rogo é quando uma pessoa que não sabe ler ou escrever pede para outra assinar um documento em seu nome, com testemunhas confirmando a identidade, uma prática comum nos registros civis brasileiros antigos e ainda válida no direito atual.
Neste artigo:
- O que é assinatura a rogo
- Por que isso é tão comum nos registros antigos
- Como reconhecer uma assinatura a rogo no documento
- Um exemplo ilustrativo de como aparece na certidão
- O que isso revela sobre a sua família
- O analfabetismo no Brasil em números
- A assinatura a rogo ainda vale hoje
O que é assinatura a rogo
Resposta rápida: assinatura a rogo é a assinatura feita por uma pessoa a pedido de outra, quando essa outra não sabe ou não pode assinar. “A rogo” vem do verbo rogar, que significa pedir. Ou seja, fulano assina a rogo de sicrano, a pedido de sicrano.
Nos cartórios e registros antigos, a fórmula mais comum era parecida com esta: “a rogo de [nome da pessoa], por não saber escrever, assina [nome de quem assinou]”. Em muitos casos, a própria pessoa fazia uma cruz ou um sinal no papel, e quem assinava por ela registrava isso ao lado.
A Lei de Registros Públicos (Lei 6.015/1973), que organiza os cartórios até hoje, prevê essa situação no artigo 37, parágrafo 1º: se o declarante ou a testemunha não puder assinar, outra pessoa assina a rogo, e tira-se a impressão digital de quem não assinou, na margem do registro.
Essa regra não nasceu em 1973. Ela já existia, em formato parecido, nos regulamentos de registro civil do século XIX, exatamente a época em que a maioria dos documentos de pesquisa genealógica foi produzida.
Por que isso é tão comum nos registros antigos
Se você está pesquisando sua árvore genealógica e encontrou várias assinaturas a rogo na sua família, a primeira coisa a entender é que isso era a regra, não a exceção. Saber ler e escrever era privilégio de uma minoria no Brasil até boa parte do século XX.
Escolas públicas eram raras, principalmente fora das capitais. No meio rural, onde vivia a maior parte da população brasileira até os anos 1950, o acesso a qualquer forma de ensino era ainda mais escasso. Trabalhar na lavoura desde criança deixava pouco espaço para estudar.
Por isso, é absolutamente normal encontrar assinatura a rogo em certidões de casamento, nascimento e óbito, e também em inventários e escrituras do seu antepassado. Quanto mais humilde a origem da família e mais distante das grandes cidades, maior a chance de encontrar esse registro.
Vale lembrar que isso vale até para famílias que hoje têm outro nível de escolaridade. Duas ou três gerações bastam para mudar completamente essa realidade dentro de uma mesma linhagem.
Como reconhecer uma assinatura a rogo no documento
Depois de olhar alguns documentos antigos, fica fácil identificar uma assinatura a rogo. Ela segue sinais bem característicos, que se repetem em cartórios de todo o Brasil.
- A fórmula escrita: frases como “a rogo de…”, “por não saber escrever”, “assina a seu rogo” ou “assina por ele, a seu pedido”.
- Uma cruz ou sinal: no lugar onde a pessoa deveria assinar, aparece apenas um X, uma cruz ou um traço, às vezes com a letra inicial do nome ao lado.
- Testemunhas: o documento traz duas testemunhas assinando, justamente para confirmar que aquela era mesmo a pessoa e que ela concordava com o conteúdo.
- Letra diferente no meio do texto: a assinatura de quem assinou a rogo costuma ter traço mais firme e seguro do que o resto do documento, porque era alguém já alfabetizado.
Se o documento estiver com letra difícil de decifrar, vale a pena treinar o olho antes de tentar identificar esses detalhes. Fizemos um guia completo sobre isso, que explica como ler a caligrafia antiga, veja o artigo sobre paleografia.
Um exemplo ilustrativo de como aparece na certidão
Para você visualizar melhor, veja um trecho fictício, criado apenas para ilustrar a fórmula, não é um documento real:
“[…] e assim declararam os contraentes José Francisco da Silva e Maria Joaquina de Jesus, sendo certo que o primeiro, por não saber escrever, assina a seu rogo Antônio Pereira Lima, testemunhas presentes Manoel dos Santos e João Batista de Souza. (assinado: uma cruz) a rogo de José Francisco da Silva, assina Antônio Pereira Lima […]”
Note os elementos: a declaração explícita de que o noivo não sabia escrever, o nome de quem assinou por ele, a cruz no lugar da assinatura e as duas testemunhas. É exatamente esse padrão que você vai encontrar em certidões reais.

O que isso revela sobre a sua família
Encontrar uma assinatura a rogo na certidão do seu antepassado não é motivo de vergonha. É um dado histórico real, e ele ajuda a entender melhor a trajetória da sua família.
Em primeiro lugar, ele indica o contexto socioeconômico daquela geração. Famílias que não tinham acesso à escola geralmente trabalhavam na lavoura, em ofícios manuais ou em serviços domésticos. Isso ajuda a montar o quadro de como seus antepassados viviam.
Em segundo lugar, ele pode apontar para uma origem rural. É comum ver esse padrão em certidões lavradas em distritos pequenos do interior, e ele some gradualmente nas gerações que migraram para a cidade, sinal de como a família foi mudando de vida ao longo do tempo.
Em terceiro lugar, ele serve de referência de comparação dentro da própria árvore. Se um ramo da família assinava normalmente e outro usava a rogo na mesma época, isso costuma revelar diferenças de renda ou de acesso à escola entre os dois lados.
Pense assim: cada assinatura a rogo que você encontra é uma prova concreta de que aquela pessoa existiu, viveu num tempo real, com limitações reais, e ainda assim seguiu em frente, casou, teve filhos, e é por isso que você está aqui pesquisando a história dela hoje.
O analfabetismo no Brasil em números
Os censos demográficos do Brasil mostram o tamanho real desse cenário. No Censo de 1890, a taxa de analfabetismo da população em geral ficou em torno de 82,6%. Para pessoas com 15 anos ou mais, estudos demográficos estimam uma taxa parecida, próxima de 77%, nos censos de 1872 e 1890.
Em 1920, o Censo ainda registrava 64,9% de analfabetismo entre brasileiros de 15 anos ou mais. Esses dois primeiros números usam recortes diferentes (população geral e população de 15 anos ou mais), então vale compará-los com cautela.
A partir daí, segundo dados do IBGE, a taxa de alfabetação da população de 15 anos ou mais cresceu assim ao longo do século XX:
- 1940: 44% da população alfabetizada
- 1950: 49% alfabetizada
- 1960: 60% alfabetizada
- 1970: 66% alfabetizada
Ou seja, se o seu antepassado nasceu antes de 1920 e vivia fora de uma capital, a chance estatística de ele não saber ler nem escrever era maior do que a chance de ele saber. A assinatura a rogo que você encontrou na certidão é, na prática, o retrato de uma realidade compartilhada pela maioria da população da época.

A assinatura a rogo ainda vale hoje
A assinatura a rogo não é só coisa do passado. Ela continua prevista no direito brasileiro atual e é usada normalmente em cartórios até hoje, para pessoas que não sabem ou não podem assinar.
O Código Civil, no artigo 595, trata do contrato de prestação de serviço firmado por quem não sabe ler nem escrever: o instrumento pode ser assinado por um terceiro a rogo, com a presença de duas testemunhas. Já a Lei de Registros Públicos (Lei 6.015/1973), no artigo 37, prevê a mesma lógica para certidões de nascimento, casamento e óbito.
Na prática, o procedimento em cartório costuma envolver três passos: o documento é lido em voz alta para a pessoa, ela confirma que entendeu e concorda, e aí outra pessoa de confiança assina por ela, junto com a impressão digital e a assinatura das testemunhas.
Então, se você topar com essa mesma fórmula num documento de família de 50 ou 100 anos atrás, está vendo uma prática jurídica sólida, que atravessou gerações e ainda protege direitos de quem não teve acesso à alfabetização.
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Quero o guia grátisPerguntas frequentes
O que significa “a rogo” numa certidão antiga?
Por que meu antepassado assinava só com uma cruz?
Assinatura a rogo tem valor legal?
Encontrar isso na minha árvore é motivo de vergonha?
Encontrei uma cruz no lugar da assinatura na certidão antiga da minha família, o que isso significa?
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Fernanda Carvalho é pesquisadora e entusiasta da história dos nomes de família. Criadora do blog Mundo dos Sobrenomes, dedica-se a explorar a origem, os significados e as curiosidades por trás de sobrenomes de diferentes países e culturas, ajudando leitores a descobrir mais sobre suas raízes e identidade familiar.













