Sobrenomes de Origem Árabe no Brasil: Como a Imigração Sírio-Libanesa Moldou Nomes de Família

Publicado em 16 de janeiro de 2026 · Atualizado em 14 de julho de 2026

Ferreiro, conhecido, vitorioso: por trás de sobrenomes como Haddad, Maluf e Nasser existe uma das maiores ondas de imigração da história brasileira, e também uma das menos entendidas. Entre o fim do século XIX e a primeira metade do XX, dezenas de milhares de sírios e libaneses deixaram o Oriente Médio rumo ao Brasil, e os sobrenomes de origem árabe no Brasil que trouxeram com eles hoje aparecem em quase toda cidade do país.

Em resumo: os sobrenomes árabes chegaram ao Brasil principalmente com imigrantes do que hoje é a Síria e o Líbano, entre 1890 e 1969 (cerca de 140 mil pessoas). Eles viajavam com passaporte do Império Otomano, o que deu origem ao apelido “turcos”. A maioria era cristã (maronita, ortodoxa ou melquita), não muçulmana, e muitos começaram como mascates, vendendo a crédito de porta em porta, até virarem donos de loja.

Neste artigo:

  • A Grande Síria e o fim do Império Otomano
  • Por que foram chamados de “turcos” no Brasil
  • Cristãos, não muçulmanos: quem eram de verdade
  • O mascate: como vender fiado virou ascensão social
  • Onde os sobrenomes árabes se fixaram no Brasil
  • Sobrenomes árabes mais comuns e seus significados
  • Dois nomes que a imigração deu ao Brasil
  • Perguntas frequentes

A Grande Síria e o fim do Império Otomano

O que hoje conhecemos como Síria e Líbano era, até 1918, uma única região sob domínio do Império Otomano, chamada por historiadores de Grande Síria, que também incluía a Palestina e a Jordânia atuais. Foi dali que partiu a onda de imigração para o Brasil, começando por volta de 1880 e se intensificando nas décadas seguintes.

Com a derrota otomana na Primeira Guerra Mundial, em 1918, a região passou a um mandato administrado pela França. O Líbano só se tornou independente em 1943, e a Síria em 1945, quase meio século depois de os primeiros imigrantes começarem a chegar ao Brasil.

É por isso que separar “sobrenomes libaneses” de “sobrenomes sírios” faz pouco sentido histórico: durante a maior parte da imigração, libaneses e sírios eram, para fins práticos e documentais, o mesmo povo, saindo do mesmo território.

Por que foram chamados de “turcos” no Brasil

Até o fim da Primeira Guerra Mundial, esses imigrantes viajavam com passaporte do Império Otomano, já que a Grande Síria não tinha soberania própria. Os documentos de entrada no Brasil registravam a nacionalidade como otomana ou turca, mesmo quando a pessoa nunca tinha posto os pés na Turquia.

É essa a origem real do apelido “turco”, ainda hoje usado para descendentes de sírios e libaneses no Brasil. Depois da guerra, com o fim do Império Otomano, os imigrantes passaram a ser identificados como sírios; só décadas depois, com o fortalecimento do nacionalismo libanês, a identidade libanesa se firmou como categoria própria e separada.

Quem documentou essa trajetória em profundidade foi o sociólogo Oswaldo Truzzi, professor da Universidade Federal de São Carlos, autor do livro De Mascates a Doutores: Sírios e Libaneses em São Paulo, publicado em 1991 e originado de uma tese de doutorado defendida na Unicamp em 1993.

Rua comercial movimentada de São Paulo no início do século XX, com lojas de tecidos, representando o comércio sírio-libanês

Cristãos, não muçulmanos: quem eram de verdade

Existe um mal-entendido comum sobre a imigração árabe no Brasil: por vir do Oriente Médio, presume-se que a maioria dos imigrantes era muçulmana. Não é bem assim. A grande maioria dos sírios e libaneses que chegaram ao Brasil entre o fim do século XIX e a primeira metade do XX era cristã, dividida principalmente entre maronitas, ortodoxos e melquitas (católicos de rito bizantino).

Essa composição religiosa explica por que tantos sobrenomes árabes espalhados pelo Brasil soam bíblicos ou remetem a santos e conceitos cristãos, em vez de referências islâmicas. A fé também ajudou a moldar redes de apoio entre os próprios imigrantes, com igrejas e paróquias funcionando como pontos de encontro e sustento mútuo nas primeiras décadas de adaptação ao país.

O mascate: como vender fiado virou ascensão social

A maior parte dos imigrantes chegou ao Brasil sem capital e sem falar português. A solução mais comum foi o mascate: um vendedor ambulante que carregava tecidos, roupas e miudezas em uma mala ou fardo, batendo de porta em porta pelo interior do país e vendendo a prazo, na base da confiança e da caderneta, um caderno onde se anotava o fiado de cada cliente.

Truzzi documentou que o comércio ambulante funcionou como porta de entrada: com o tempo, e aproveitando o crescimento da economia cafeeira, muitos mascates conseguiram abrir uma loja fixa, depois um armarinho, depois um atacado. Foi um caminho de ascensão que, poucas décadas depois, levaria filhos e netos a cursos superiores e a cargos de destaque no país, do comércio à política.

Mesa de família com fotografias antigas em preto e branco e uma mala de viagem, representando a memória da imigração

Onde os sobrenomes árabes se fixaram no Brasil

São Paulo se tornou o principal polo comercial da imigração sírio-libanesa, com destaque para a região da Rua 25 de Março, no centro da capital, que até hoje é sinônimo de comércio popular e atacadista. O interior paulista, o Rio de Janeiro e Minas Gerais também receberam levas importantes.

No Norte do país, cidades como Belém e Manaus, ligadas ao ciclo econômico da borracha, também atraíram famílias sírio-libanesas, muitas vezes seguindo parentes ou conterrâneos que já haviam se estabelecido antes. Esse padrão de “chamada familiar” explica por que certos sobrenomes árabes se concentram fortemente em cidades específicas até hoje.

Sobrenomes árabes mais comuns e seus significados

A tabela abaixo reúne alguns dos sobrenomes de origem árabe mais encontrados entre famílias sírio-libanesas no Brasil, com o significado mais aceito para cada um:

SobrenomeSignificadoOrigem
HaddadFerreiroOcupacional
MalufConhecido, familiar (do árabe ma’lūf)Descritivo
NasserVitorioso, aquele que socorreDescritivo
Saad / SaidFeliz, afortunadoDescritivo
AbdalaServo de DeusReligioso
Kalil / KhalilAmigo íntimoDescritivo

Vale lembrar que a transliteração do árabe para o português nunca foi padronizada, então o mesmo sobrenome pode aparecer com grafias diferentes em documentos e famílias distintas, sem que isso indique erro ou parentesco necessariamente.

Quem quiser entender a lógica por trás da formação desses nomes no mundo árabe como um todo, e não só no Brasil, pode conferir o guia sobre sobrenomes árabes: significado e linhagem. Para a origem específica de sobrenomes já tratados aqui no blog, veja também Sobrenome Haddad e Sobrenome Almeida, que tem origem árabe mas virou um dos sobrenomes mais comuns de Portugal.

Dois nomes que a imigração deu ao Brasil

Alguns dos descendentes de imigrantes sírio-libaneses ocuparam lugares centrais na história recente do país. Dois exemplos documentados ajudam a mostrar essa trajetória, do mascate ao topo da vida pública brasileira.

Michel Temer, presidente do Brasil entre 2016 e 2018, é filho de Nakhoul (“Miguel”) Elias Temer e Marc Barbar Lulia, imigrantes maronitas que deixaram Btaaboura, uma pequena vila no norte do Líbano, em 1925, fugindo da fome e da instabilidade deixadas pela Primeira Guerra Mundial. A família construiu no Brasil um negócio de beneficiamento de arroz e café antes de Michel, o oitavo filho, seguir carreira no direito e na política.

Adib Jatene, um dos maiores nomes da cirurgia cardíaca mundial, nasceu em Xapuri, no Acre, filho de imigrantes libaneses da região de Akkar, no norte do país. Seu pai era comerciante, negociava com seringueiros da região, e morreu de febre amarela quando Adib tinha 2 anos, levando a família a se mudar para Uberlândia (MG). Jatene se tornaria o criador da técnica cirúrgica conhecida mundialmente como “switch arterial de Jatene”, usada até hoje para corrigir uma malformação cardíaca grave em recém-nascidos.

Perguntas frequentes

Por que os imigrantes sírios e libaneses eram chamados de “turcos” no Brasil?
Porque, até o fim da Primeira Guerra Mundial, a região de onde vinham (a Grande Síria) fazia parte do Império Otomano, e eles viajavam com passaporte otomano. Os documentos de entrada no Brasil registravam essa nacionalidade, mesmo sem nenhuma ligação com a Turquia atual.
Existe diferença entre sobrenomes libaneses e sírios?
Na prática, pouca. Até 1918, Síria e Líbano eram a mesma região sob domínio otomano, e só se tornaram países independentes décadas depois (Líbano em 1943, Síria em 1945). Os sobrenomes e as famílias muitas vezes têm exatamente a mesma origem.
A maioria dos imigrantes árabes no Brasil era muçulmana?
Não. A maioria dos sírios e libaneses que imigraram para o Brasil era cristã, principalmente maronita, ortodoxa ou melquita. Isso explica por que muitos sobrenomes árabes no Brasil têm origem bíblica ou religiosa cristã.
O que significa o sobrenome Maluf?
Vem do árabe “ma’lūf”, que significa “conhecido”, “familiar” ou “costumeiro”. É um dos sobrenomes sírio-libaneses mais conhecidos no Brasil, especialmente em São Paulo.
Quantos sírios e libaneses imigraram para o Brasil?
Estima-se que cerca de 140 mil sírios e libaneses tenham imigrado para o Brasil entre 1890 e 1969, fugindo de crises econômicas, perseguições e da instabilidade causada pelas guerras no Oriente Médio.
Autora Fernanda Carvalho
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Fernanda Carvalho é pesquisadora e entusiasta da história dos nomes de família. Criadora do blog Mundo dos Sobrenomes, dedica-se a explorar a origem, os significados e as curiosidades por trás de sobrenomes de diferentes países e culturas, ajudando leitores a descobrir mais sobre suas raízes e identidade familiar.

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