Publicado em 15 de outubro de 2026
A paleografia é o que separa quem acha o batismo do bisavô e entende cada linha de quem acha e trava na primeira palavra. A letra antiga dos livros de igreja parece outro idioma: tudo emendado, cheio de abreviatura e com tinta apagada.
Já tive problema para entender uma letra. Os registros antigos são bem difíceis. A boa notícia é que eles seguem um padrão, e quem conhece o padrão passa a ler muito mais do que imagina.
Em resumo: para ler a letra antiga, comece pelos nomes e lugares que você já conhece, compare as letras dentro do próprio documento, use a fórmula fixa do assento como mapa, consulte uma lista de abreviaturas e transcreva linha a linha marcando as dúvidas com [?].
Neste artigo:
- O que é paleografia?
- Por que a letra antiga dos registros é tão difícil
- As abreviaturas que mais aparecem nos registros
- Como ler documentos antigos em 6 passos
- Exemplo prático: um assento de batismo de 1870
- Onde buscar ajuda para ler a letra antiga
- Do documento lido à história da família
- Perguntas frequentes
O que é paleografia?
Paleografia é a ciência que estuda as escritas antigas e ensina a ler, entender e transcrever documentos manuscritos de outras épocas. O nome vem do grego e quer dizer, ao pé da letra, “escrita antiga”.
Na genealogia, ela transforma um batismo, casamento ou óbito escrito à mão há 150 anos num texto que você consegue ler e conferir.
Por que a letra antiga dos registros é tão difícil
Os registros paroquiais brasileiros dos séculos XVIII e XIX foram escritos à pena, com pressa, num português sem ortografia oficial. Vários problemas se somam na mesma página:
- Caligrafia cursiva: letras ligadas e parecidas, como c e e, r e v, u e n.
- Grafia sem padrão: o escrivão escrevia como ouvia. Aparece y no lugar de i (Pereyra), ph no lugar de f, letras dobradas (annos) e z no lugar de s (Joze, Roza).
- S longo (ſ): uma forma comprida do s, usada até o século XIX no meio das palavras, que confunde fácil com o f.
- Abreviaturas: nomes e palavras repetidas eram encurtados, muitas vezes com uma letra pequena no alto.
- Datas por extenso: “mil oito centos e setenta” em vez de 1870, às vezes com algarismos romanos.
- Tinta desbotada e papel manchado: a tinta ferrogálica, comum na época, perde a cor com o tempo e pode corroer ou atravessar o papel.
A grafia variável é a que mais engana na genealogia. A própria wiki do FamilySearch sobre termos genealógicos em português lembra que, mesmo com a ortografia mais ou menos fixada em meados do século XVIII, os escrivães seguiam escrevendo as palavras do jeito que soavam.
Por isso Souza e Sousa, Pereyra e Pereira podem ser a mesma pessoa. Descartar um registro por causa de uma letra é erro comum de quem começa.

As abreviaturas que mais aparecem nos registros
Quase toda abreviatura de registro antigo segue uma de três lógicas. Na suspensão, corta-se o final da palavra. Na contração, somem letras do meio. E na mais comum, a letra sobrescrita, o escrivão escreve o começo da palavra e põe a última letra pequena, no alto.
Comum quanto? Uma dissertação da UFBA analisou documentos de cartório dos séculos XVIII e XIX e achou 76,89% das abreviaturas feitas por letra sobrescrita, contra 12,54% por suspensão e 7,67% por contração.
Estas são algumas das que você mais vai encontrar em livros de batismo, casamento e óbito:
| Como aparece | O que significa | Tipo |
|---|---|---|
| Ant.º / Ant.ª | Antonio / Antonia | Letra sobrescrita |
| Fran.co / Fran.ca | Francisco / Francisca | Letra sobrescrita |
| Mª | Maria | Letra sobrescrita |
| Joaq.m | Joaquim | Letra sobrescrita |
| f.º / f.ª | filho / filha | Letra sobrescrita |
| leg.mo / leg.ma | legítimo / legítima | Letra sobrescrita |
| m.er | mulher (esposa) | Letra sobrescrita |
| freg.ª | freguesia (paróquia) | Letra sobrescrita |
| q. | que | Suspensão |
| d.º / d.ª | dito / dita (o mesmo já citado) | Letra sobrescrita |
| Snr / Snrª | Senhor / Senhora | Contração |
| p.ª | para | Letra sobrescrita |
Como ler documentos antigos em 6 passos
Não tente ler o documento palavra por palavra de cima para baixo. Na paleografia se faz o contrário: parte do que já sabe e vai fechando o cerco.
1. Comece pelo que você já sabe
Procure primeiro os nomes da família, a cidade ou paróquia e o ano. Como você já sabe essas palavras, fica fácil reconhecer o desenho de cada letra.
2. Monte o alfabeto do escrivão
Cada escrivão tinha seu jeito de fazer cada letra. Numa palavra que você tem certeza, como “Maria”, observe o M, o a, o r. Depois procure essas formas nas palavras difíceis do mesmo documento e anote num papel o “alfabeto” daquele padre.
3. Use a fórmula do assento como mapa
Registros de igreja seguem um roteiro quase fixo. Um batismo costuma vir assim: “Aos … dias do mês de … de … nesta Matriz de … batizei solenemente … filho legítimo de … e de … foram padrinhos …”. Sabendo a ordem, você já sabe o que esperar em cada trecho.
Casamento e óbito têm fórmulas parecidas. Leia três ou quatro assentos vizinhos do mesmo livro e o padrão salta aos olhos.
4. Tenha a lista de abreviaturas aberta
Deixe a tabela de cima por perto. Apareceu letra pequena no alto ou ponto no meio da palavra, consulte antes de chutar.
5. Amplie a imagem e mexa no contraste
Dê zoom e ajuste brilho e contraste: letra apagada muitas vezes reaparece. Ler a palavra em voz alta com as letras possíveis também mostra qual faz sentido.
6. Transcreva linha a linha e marque as dúvidas
A transcrição de documentos antigos é copiar o texto exatamente como está, linha por linha. O que não der para ler vira [?], e o que você deduziu vai entre colchetes, como Ant[oni]o. Assim você separa o que leu do que imaginou.
Não é preciosismo. Ler “Joaquim” onde estava “Joana” pode colocar na sua árvore um parente que nunca existiu.
Exemplo prático: um assento de batismo de 1870
Para ver o método funcionando, criei o assento abaixo especialmente para este artigo. Não é um documento real: os nomes e a paróquia são inventados, mas a fórmula, a grafia e as abreviaturas seguem o estilo de um batismo brasileiro por volta de 1870.
Exemplo fictício, criado para este artigo
Aos quinze dias do mez de Março de mil oito centos e setenta, nesta Matriz de N. Snra da Conceição, baptizei solemnemente a Joze, nascido aos dous do do mez, fo legmo de Anto Joaqm Pereyra e de Ma Franca de Jezus, naturaes e moradores nesta frega. Forão padrinhos Manoel Franco da Sa e sua mer Anna Roza. E pa constar fiz este assento q. assigno.
O Vigario Joaquim Alves
Agora a mesma leitura em português atual, já com as abreviaturas desfeitas:
Aos quinze dias do mês de março de 1870, nesta Matriz de Nossa Senhora da Conceição, batizei solenemente José, nascido em 2 de março, filho legítimo de Antonio Joaquim Pereira e de Maria Francisca de Jesus, naturais e moradores nesta freguesia. Foram padrinhos Manoel Francisco da Silva e sua mulher Anna Rosa. Para constar, fiz este registro, que assino. O vigário Joaquim Alves.
- d.º mez: “dito mês”, ou seja, o mesmo março citado antes. A criança nasceu em 2 de março e foi batizada no dia 15.
- f.º leg.mo: filho legítimo, sinal de que os pais eram casados na Igreja.
- Ant.º Joaq.m e Mª Fran.ca: Antonio Joaquim e Maria Francisca, os pais.
- Fran.co da Sª: Francisco da Silva. O Sª para Silva é muito comum.
- freg.ª, m.er, p.ª e q.: freguesia, mulher, para e que.
Já mez, baptizei, Joze, dous, Pereyra, Jezus, Forão e Roza são só a grafia da época para palavras que você conhece.
Um único assento entrega duas datas, os pais e dois padrinhos, que muitas vezes eram tios ou avós. Cada nome é uma pista nova.

Onde buscar ajuda para ler a letra antiga
Você não precisa decifrar tudo sozinho. Já encontrei no FamilySearch vários registros de batismo da igreja relacionados à minha família, mas a maioria é difícil de entender. É aí que algumas ferramentas gratuitas fazem diferença:
- FamilySearch: muitos registros paroquiais têm indexação, um resumo digitado com nomes e datas. Use como guia, mas confira na imagem original, porque o indexador também erra.
- Dicionário de abreviaturas: Abreviaturas: manuscritos dos séculos XVI ao XIX, de Maria Helena Ochi Flexor, publicado pelo Arquivo Nacional, reúne, em quase 600 páginas, abreviaturas de manuscritos em ordem alfabética e é a referência mais citada no Brasil.
- Tutorial de escrita portuguesa da BYU: o Script Tutorial da Brigham Young University mostra o alfabeto manuscrito, o s longo e os pares de letras que mais se confundem.
- Arquivos públicos e diocesanos: costumam ter funcionários acostumados com a letra antiga e, às vezes, oficinas de paleografia abertas ao público.
- Grupos de genealogia: pesquisadores costumam ajudar quando você posta o recorte da imagem com a referência do livro.
Ao pedir ajuda, mande o trecho já transcrito com os [?] marcados. Você aprende com cada correção.
Do documento lido à história da família
A paleografia é só uma etapa. O valor aparece quando cada nome decifrado entra na pesquisa com a fonte anotada e leva ao próximo documento: o casamento dos pais, o batismo dos avós.
O guia Como Descobrir a Origem da Sua Família organiza esse caminho em etapas, da conversa com os parentes à leitura de documento antigo em cartório e na igreja.
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Um guia rápido e gratuito para sair do “um dia eu pesquiso minha família” e dar o primeiro passo, ainda hoje.
Quero o guia grátisPerguntas frequentes
O que é paleografia?
Preciso fazer curso para ler documentos antigos da família?
O que significa Ant.º ou Mª em um registro antigo?
Por que o mesmo sobrenome aparece escrito de jeitos diferentes?
Onde encontro uma lista de abreviaturas de documentos antigos?
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Fernanda Carvalho é pesquisadora e entusiasta da história dos nomes de família. Criadora do blog Mundo dos Sobrenomes, dedica-se a explorar a origem, os significados e as curiosidades por trás de sobrenomes de diferentes países e culturas, ajudando leitores a descobrir mais sobre suas raízes e identidade familiar.












